Índice
Referência Bíblica: Mateus 24:12 – “E, por se multiplicar a iniquidade, o amor de muitos esfriará.”
Introdução
A frieza espiritual é algo que, não chega de uma vez. Ela se instala devagar, e quando menos percebemos, o coração que antes ardia por Deus se tornou indiferente, morno, distraído. Jesus, no sermão profético de Mateus 24, nos alertou que um dos sinais mais sutis — e mais perigosos — dos últimos dias seria esse: a multiplicação da iniquidade e o esfriamento do amor.
Cada um de nós deve questionar como está nosso coração hoje em relação a Deus? Vivemos dias em que a violência se tornou entretenimento, a mentira virou algo normal para muitos, e o egoísmo é tratado como virtude. É nesse clima de esfriamento da alma humana que a fé corre o risco de congelar. Li em um determinado texto que “em tempos de crise, o maior perigo para a fé não é a perseguição, mas a sedução”. Ou seja, não é o ataque, mas o adormecimento que nos distancia de Deus.
Não estamos imunes. A frieza espiritual pode alcançar o intercessor que já não ora com tanto fervor, o pregador que já não se empolga mais tanto com a palavra que precisa anunciar, ou com o adorador que canta sem adoração verdadeira. É uma epidemia silenciosa que se instala por negligência, distração ou decepção.
Muitos cristãos praticantes tem relatado viver momentos de apatia de estagnação e ausência de crescimento na vida espiritual ao longo do ano. Isso mostra que esse “esfriamento do amor” é mais comum — e mais perigoso — do que imaginamos.
Mas há esperança. O mesmo Jesus que nos alertou sobre os sinais do fim, nos oferece também o caminho da restauração. O Médico dos médicos ainda reacende a chama do fervor nos corações, ainda aquece almas. Sobre isso C.S. Lewis dizia que: “O coração do homem é insaciável até que descanse em Deus”.
Hoje, vamos examinar os sintomas da frieza, identificar as causas, e — acima de tudo — buscar a cura que só o amor restaurador de Cristo pode trazer.
Ele não nos chama à religiosidade morna, mas a uma vida de devoção verdadeiramente viva. E tudo começa com um passo: aproximar-se de Deus.
1. O Diagnóstico: O Amor Esfriou
Quando Jesus profetiza em Mateus 24:12 que “o amor de muitos esfriará”, Ele nos apresenta um quadro preocupante sobre a condição espiritual que pode acometer qualquer um de nós. Não se trata de uma simples frieza emocional, mas de uma decadência espiritual profunda que compromete a essência da fé cristã: o amor. Esse esfriamento começa no relacionamento com Deus, quando o coração se torna apático à Sua presença, quando o zelo pela oração, pela leitura da Bíblia e pela comunhão com outros crentes se esvai. Depois, essa frieza se estende ao próximo, fazendo com que a empatia diminua, os relacionamentos se tornem indiferentes e a solidariedade seja substituída pelo individualismo.
Esse processo é muitas vezes sutil, quase imperceptível no início. Sobre isso, gosto muito da reflexão do Pr. John Stott que diz que, “Quando a fé perde sua centelha de amor, ela se torna apenas um sistema frio de crenças”. Pequenas permissividades, como adiar uma oração, negligenciar um culto ou alimentar uma mágoa, vão se acumulando. Aos poucos, o que era um fervor espiritual vibrante se transforma em uma rotina religiosa sem vida. A fé, que antes pulsava como uma chama viva, passa a ser apenas uma brasa quase apagada, que só ganha um leve brilho em momentos de crise ou emoção passageira.
Para ilustrar essa realidade, pense em uma fogueira robusta que não se apaga de uma só vez. Primeiro, as chamas vão diminuindo gradualmente. Depois, restam apenas brasas vermelhas que ainda emanam um pouco de calor. Se não forem alimentadas com nova lenha e oxigênio, essas brasas viram cinzas mornas, até que, finalmente, o calor desaparece por completo, deixando apenas a lembrança nostálgica de uma fonte outrora vibrante de luz e calor. Nossa vida espiritual segue um caminho semelhante quando negligenciamos os combustíveis essenciais, como a oração, a Palavra de Deus e a comunhão.
Como A.W. Tozer sabiamente apontou que, “O maior perigo da igreja não está fora dela, mas no coração dos que, amando menos, fingem ainda amar”. Essa fingida devoção é um sintoma grave de que o amor já não aquece mais a alma.
Mas Jesus não apenas diagnostica o problema; Ele nos chama à vigilância e à perseverança. O amor verdadeiro é a marca daqueles que resistem até o fim, mesmo em meio a um mundo que parece conspirar contra a fé. Por isso, se você percebe que sua fé tem esfriado, que sua alma já não se aquece na presença de Deus como antes, não se condene – reaja. Relembre seu primeiro amor, retome os hábitos que aqueciam seu coração, reaproxime-se da comunhão com outros crentes e busque ajuda se necessário. Jesus não só identificou o problema, mas estende a mão com graça. Hoje pode ser o recomeço da sua chama espiritual. Você aceita o convite de reacender o fogo?
2. A Causa: A Multiplicação da Iniquidade
Quando Jesus fez a solene advertência de que, nos tempos finais, “por se multiplicar a iniquidade,…..” (Mateus 24:12), Ele estava nos dando um diagnóstico preciso da causa raiz de uma das maiores doenças espirituais: a frieza do coração.
Para compreendermos a profundidade desta questão, é fundamental analisarmos o termo original grego utilizado para “iniquidade”: anomia. Literalmente, significa “sem lei”. Assim, a referência de Jesus não se limitava a crimes ou pecados evidentes, mas apontava para algo mais insidioso e perigoso: uma mentalidade cultural que ignora a lei divina. Essa mentalidade promove a substituição gradual da verdade absoluta de Deus por verdades relativas e convenientes. Em essência, é o espírito de uma época que nos incita a viver como se Deus não existisse ou como se Suas diretrizes não tivessem mais relevância em nossa vida contemporânea.
Essa mentalidade de anomia se manifesta de forma clara no egoísmo desenfreado, na busca incessante pelo prazer pessoal a qualquer custo e na perigosa normalização daquilo que a Palavra de Deus claramente chama de pecado.
Conforme R.C. Sproul, “vivemos em uma era onde a iniquidade não é apenas tolerada, mas celebrada, e isso corrói a fundação do amor cristão como um ácido silencioso.” Essa toxicidade espiritual que vemos no mundo de hoje, congela nosso coração. Por isso, Paulo nos orienta em Romanos 12:2: “E não vos conformeis com este mundo, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus.” É um chamado à resistência e transformação mental.
Meu amigo, a multiplicação da iniquidade não é um problema que acontece apenas “lá fora”, distante de nós. Ela está nas mensagens que consumimos, nas imagens que vemos e nos valores que, muitas vezes sem perceber, começamos a aceitar como normais. Jesus nos alertou sobre isso porque Ele sabia que esse ambiente corrosivo poderia esfriar nosso amor se não tomássemos um cuidado ativo. Por isso, quero te fazer um desafio: nos próximos dias, pare e reflita sinceramente sobre o que tem influenciado sua mente e seu coração. Que tipo de conteúdo você tem consumido? Que atitudes você tem tolerado em sua vida simplesmente porque “todo mundo faz”?
Assuma o compromisso de ser um filtro vivo, buscando na Palavra de Deus a orientação necessária para discernir o certo do errado. Dedique um momento diário para orar e pedir ao Espírito Santo que te guarde dessa forte correnteza de egoísmo e desobediência. Você está disposto a ser uma luz, mesmo em um mundo que parece se afundar na escuridão da iniquidade? Dê esse passo de coragem hoje – sua fé, seu amor e a vitalidade da sua alma dependem disso!
3. O Exame: Corações Divididos
“Corações divididos” — é assim que Tiago descreve a condição daqueles que tentam seguir a Deus e ao mundo ao mesmo tempo. Na sua carta, ele nos convida com firmeza: “Purificai os corações, vós de duplo ânimo” (Tiago 4:8b). A expressão “duplo ânimo”, vinda do grego dipsychos, carrega a ideia de alma partida, mente indecisa, vontade fraturada. Não é apenas hesitação; é conflito interno. É o coração que oscila entre o altar de Deus e os apelos do mundo. E, como afirma Martyn Lloyd-Jones: “Onde Cristo não é tudo, Ele acaba sendo pouco.”
Essa frieza espiritual, produzida por um coração dividido, não começa de forma escandalosa, mas também aos poucos. Pequenas concessões – como ceder à fofoca, justificar uma mentira “inofensiva” ou passar mais tempo nas redes sociais do que na oração –, distrações toleradas – como o uso excessivo do celular durante o culto ou a permissão para que o entretenimento mundano ocupe o lugar da leitura bíblica –, afetos desviados – como a busca por validação em amizades superficiais em vez de em Deus, ou a dedicação de energia e tempo a hobbies que roubam a atenção do serviço a Deus – até que a fé vira obrigação e a paixão vira memória. Aqui convem lembrar do que afirma Apocalipse 3:16, Deus abomina a mornidão. Ele prefere o frio honesto ao morno fingido. Um coração dividido não consegue se entregar por inteiro porque vive entre dois senhores, como uma casa com dois donos em conflito, cada um decorando um cômodo de maneira oposta. O resultado? Bagunça, desordem e ausência de paz.
A imagem usada em 1 Reis 18:21 resume bem essa situação: “Até quando coxeareis entre dois pensamentos?” Elias desafia o povo a parar de mancar espiritualmente. Coxear entre Baal e o Senhor era o reflexo de um povo de “duplo ânimo” que precisava fazer uma escolha clara. Esse chamado ecoa ainda hoje. Não dá para caminhar firme com Deus enquanto o coração é atraído, constantemente, por valores que se opõem a Ele.
A analogia da casa dividida deixa claro o custo de manter essa duplicidade. Imagina viver sob um teto em que há duas regras diferentes, dois estilos opostos, dois senhores disputando seu afeto? Não há harmonia possível. Da mesma forma, a alma que tenta equilibrar amor a Deus e apego ao mundo se torna um campo de guerra — esgotada, instável e, no fim, distante da presença do Pai.
Os efeitos dessa divisão são visíveis: orações vazias, leitura da Palavra sem vida, indiferença gélida e rotina espiritual mecânica. Tiago 1:8 descreve o crente de coração dividido como inconstante em todos os seus caminhos.
Este texto é um convite: para cessar a guerra interna entre nossos desejos e o que é justo aos olhos de Deus. Qual área da sua vida está fragmentada? Que hábito ou escolha você ainda tenta conciliar com sua fé? Hoje é o dia de entregar essa parte dividida a Deus. Diga: “Senhor, não desejo mais viver em divisão. Eu Te escolho com todo o meu ser.” Este é o momeneto para experimentarmos uma nova liberdade, é o primeiro passo para a unidade do coração e plenitude da comunhão com Deus. Ele anseia por tudo de nós e nos oferece tudo de Si. Escolha servi-Lo com um coração completo.
4. A Cura: A Aproximação Intencional
Referência bíblica base: Tiago 4:8a – “Chegai-vos a Deus, e Ele se chegará a vós.”
Diante do diagnóstico de um coração frio e distante, a Bíblia nos oferece não uma fórmula mágica, mas um convite poderoso e uma promessa garantida. Em Tiago 4:8, encontramos a solução divina para a apatia espiritual: “Chegai-vos a Deus, e ele se chegará a vós.”
Diferentemente do que muitos pensam, a cura para essa frieza não reside em esperar passivamente por um sentimento arrebatador ou uma emoção passageira que reacenda a paixão. Tiago nos ensina que a restauração é, na verdade, o resultado de uma ação deliberada, um movimento consciente e intencional em direção ao nosso Criador. Essa busca por Deus, no entanto, não é um esforço unilateral. A promessa é clara e profundamente reconfortante: quando damos o primeiro passo em direção a Ele, Deus responde com Sua presença restauradora. Essa reciprocidade divina é a base de um relacionamento vivo e dinâmico com o Senhor.
Para que essa aproximação seja eficaz, ela precisa ser prática. O versículo continua nos instruindo a “limpar as mãos”, um símbolo claro do abandono de práticas pecaminosas e comportamentos que sabemos que desagradam a Deus, e a “purificar o coração”, que representa uma renovação da nossa devoção interna, realinhando nossos desejos e lealdades com a vontade d’Ele. A frieza espiritual, muitas vezes fruto de um coração dividido ou de negligência, encontra sua cura nesse movimento sincero de retorno. Como bem disse o teólogo John Piper, “Deus não está esperando que sejamos perfeitos para nos aproximarmos d’Ele; Ele está esperando que sejamos honestos.” Chegar-se a Deus é, antes de tudo, reconhecer nossa necessidade e confiar que Ele, em Sua graça, nos encontrará no caminho.
Essa verdade é ecoada por toda a Escritura. No Salmo 145:18, lemos que “Perto está o Senhor de todos os que o invocam, de todos os que o invocam em verdade”, reforçando que Deus se aproxima daqueles que o buscam com sinceridade. Da mesma forma, em Jeremias 29:13, a promessa é condicionada à nossa inteireza: “Buscar-me-eis e me achareis quando me buscardes de todo o vosso coração.” A ênfase em um coração inteiro e unificado é crucial. Podemos visualizar essa dinâmica com uma imagem simples: imagine um pai parado na varanda, olhando pacientemente para a estrada, esperando o retorno de um filho que se afastou. Ele não corre atrás com acusações e cobranças, mas também não tranca a porta. Ele permanece ali, de braços abertos, aguardando um movimento, um único passo do filho em sua direção. Assim é o nosso Deus. Ele responde à nossa mais simples tentativa de aproximação com uma avalanche de graça e restauração.
Portanto, se você sente que seu coração está frio, distante ou seco — não espere por um milagre emocional que talvez nunca chegue. Dê um passo. Aproxime-se. Separe um tempo hoje, desligue as distrações, abra sua Bíblia e fale com Deus como quem fala com um Pai que nunca parou de ouvir. Limpe suas mãos de hábitos que te afastam e purifique seu coração de lealdades duvidosas que dividem sua alma. Ele prometeu, e Sua palavra não falha: “Chegai-vos a Deus, e Ele se chegará a vós.” A cura para sua alma começa com a sua decisão. Você aceita dar esse passo hoje?
Conclusão
A frieza espiritual não é um acaso do tempo, mas um sintoma do distanciamento gradual de Deus e da exposição constante à iniquidade. O coração que um dia ardia pode esfriar quando permitimos que os ventos do mundo apaguem a chama da fé. Mas, assim como o fogo se reacende com lenha e oxigênio, a alma pode ser renovada pela presença de Deus — se houver aproximação intencional, arrependimento sincero e purificação do coração.
Talvez você esteja se perguntando: “Mas será que ainda há tempo para recomeçar?” A resposta está na mesa. A Ceia do Senhor não é apenas um rito, mas um convite pessoal à reconciliação. É como uma mesa preparada por um pai que, mesmo depois de tantas ausências, ainda reserva o seu lugar com amor. Aproxime-se. Sente-se. Recomece. O pão e o cálice não são apenas símbolos, mas memórias vivas da graça que aquece o que está frio e levanta o que está caído.
Estudos apontam que 63% dos cristãos já passaram por fases de apatia espiritual. O que os restaurou? Não foram sentimentos aleatórios ou grandes eventos — mas pequenas decisões diárias de se reaproximar. A cura começa com um passo. Como diz a antiga poesia cristã:
“Um passo em Teu caminho e a alma revive;
não pela emoção, mas porque Teu amor persiste.”
Pense: qual foi a última vez que você se aproximou verdadeiramente de Deus — não por obrigação, mas por saudade? Hoje, ao participar da Ceia, deixe que este seja mais que um ato litúrgico: transforme-o em um ato de retorno. Deixe o Espírito sondar o seu coração, remover as máscaras, curar as rachaduras e reacender o que apagou.
Se você ouvir esse chamado e se mover em direção ao Pai, Ele não hesitará em correr ao seu encontro. Ele ainda é o Deus que acende corações, que cura almas partidas e que restaura o amor perdido. Então, não adie. Dê esse passo. Aproxime-se. Purifique-se. E viva novamente com o coração inteiro no altar.
Esse é o recomeço que o céu espera. A Ceia está posta. Agora é a sua vez de se levantar.
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