Bibliologia – Parte 01

INTRODUÇÃO

Vivemos em uma época em que a
fé cristã se encontra cercada pelo ceticismo, racionalismo e materialismo,
entre outros “ismos” que tentam colocar em descrédito a verdade absoluta da
Palavra de Deus.

Desde longas datas, a Bíblia
tem sido desafiada em sua veracidade. Há, em toda a história do cristianismo,
uma luta constante do inimigo em tentar destruir a Bíblia Sagrada. Entretanto,
ao que parece, as forças espirituais do mal, nesses tempos finais, estão
deixando de lado suas táticas antigas e, agora, estão tentando perverter a
mensagem das Escrituras.

Seitas e doutrinas falsas
proliferam por toda parte e, em sua maioria, iniciadas e conduzidas por líderes
que, quase sempre, se consideram inspirados por uma “divindade”, ou seja, por
um “espírito divino”. Para muitos, a Bíblia não passa de mais um livro, como
qualquer outro.

Diferente dessa concepção, os
cristãos creem na Palavra de Deus de forma sólida, convicta e inalterável. Não
é por acaso que a Bíblia é considerada o Livro dos livros, o maior Livro de
todos os tempos. Por meio de sua leitura, o homem pode ter conhecimento das
coisas importantes do passado, do presente e do futuro.

Para que a
fé do leitor seja fortalecida, serão apresentadas, neste trabalho, ainda que de
forma concisa, algumas provas da origem das Escrituras, as quais evidenciam a
Bíblia como sendo a verdadeira Palavra de Deus.

Desejamos
que, ao término desta leitura, o leitor seja edi- ficado e chegue à conclusão
de que vale a pena conhecer a Bíblia.

Capítulo
1

A BÍBLIA

O vocábulo “bíblia” não se
acha escrito em nenhum texto das Sagradas Escrituras. Pelo contrário, consta
apenas da capa da Bíblia. Etimologicamente, a palavra “bíblia”, utilizada na
língua portuguesa, vem do termo biblos, que significa “um livro”.

No primeiro livro do Novo
Testamento, lemos: “Livro [bi­blos} da genealogia de Jesus Cristo” (Mt
1.1). A Forma diminutiva de biblos é biblion, que significa
“pequeno livro”, expressão que pode ser lida no texto de Lucas 4.17, que diz:
“E foi-lhe dado o livro [biblion] do profeta Isaías; e, quando abriu o
livro [biblion], achou o lugar em que estava escrito…”.

A origem do termo biblos
vem do nome dado à polpa in­terna da planta do papiro em que se escreviam os
livros sa­grados. O significado da palavra Bíblia é: “coleção de livros
pequenos”.

Com a invenção do papel, os
rolos desapareceram e, então, a palavra biblos deu origem ao termo
livro. Os doutores nesse assunto são de comum acordo de que foi João
Crisóstomo, patriarca de Constantinopla, que usou, pela primeira vez, o nome
“bíblia”, no século 4°.

Outros
nomes

A Bíblia é, também, chamada
de Escritura (Mc 12.10; 15.28; Lc 4.21; Jo 2.22; 7.38; 10.35; Rm 4.3; G1 4.30;
2Pe 1.20) e/ou de Escrituras (Mt 22.29; Mc 12.24; Lc 24.27; Jo 5.39; At 17.11;
Rm 1.2; lCo 15.3,4; e 2Pe 3.16).

Em verdade, a palavra
Escritura (ou Escrituras) é uma derivação do vocábulo latim scriptura, que significa
“escritos sagrados”. O apóstolo Paulo usou as expressões “sagradas es­crituras”
(Rm 1.2), “sagradas letras” (2Tm 3.15) e “oráculos de Deus” (Rm 3.2).

Todavia, um dos nomes mais
descritivos e satisfatórios da Bíblia é Palavra de Deus (Mc 7.13; Rm 10.17; 2Co
2.17; lTs 2.13; Hb 4.12).

A estrutura
da Bíblia

A Bíblia se divide em duas
partes: o Antigo Testamento e o Novo Testamento. O Antigo contém 39 livros e o
Novo, 27. Ao todo, são 66 livros.

Escrita num período de 1500
anos, a Bíblia teve cerca de 40 autores, das mais variadas profissões e
atividades. Es­ses homens viveram e escreveram em épocas e lugares di­ferentes.
Estavam distantes uns dos outros, entretanto, seus escritos formam uma harmonia
perfeita. Dois deles eram reis: Davi e Salomão. Jeremias e Ezequiel,
sacerdotes. Lu­cas, médico. Pedro e João, pescadores. Moisés e Amós, pas­tores.
O apóstolo Paulo era fariseu. Daniel, político. Ma­teus, cobrador de impostos.
Josué, soldado. Esdras, escriba. E Neemias, mordomo.

Com isso, podemos ver que
apenas um ser estava dirigindo aqueles quarenta autores no registro da
revelação divina: Deus.

A palavra testamento, nas
designações Antigo Testamento e Novo Testamento, tem sua origem no vocábulo
latim tes- tamentum e, no vocábulo grego, diathéke, cujo
significado, na maioria de suas ocorrências na Bíblia grega, é “concerto” ou
“aliança”, em vez de “testamento”. Em Jeremias 31.31, foi pro­fetizado um novo
concerto que iria substituir aquele que Deus fez com Israel no deserto (Ex
24.7-8). Lemos em Hebreus 8.13: “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro”.

Os escritores do Novo
Testamento vêm o cumprimento da profecia do novo concerto na nova ordem
inaugurada pela obra de Cristo. Suas próprias palavras, ao instituir esse con­certo
(lCo 11.25), dão autoridade a esta interpretação. Os termos Antigo Testamento e
Novo Testamento, nomeados para as duas coleções de livros da Bíblia, entraram
no uso ge­ral entre os cristãos na última parte do século 2°. Tertuliano
traduziu o vocábulo grego diathéke para o termo latim instru- mentum
(um documento legal) e, também, por testamentum. Infelizmente, foi a
última palavra que vingou, considerando- -se que as duas partes da Bíblia não
são “testamentos” no sentido ordinário do termo.

O Antigo
Testamento

Na Bíblia hebraica, os livros
estão dispostos em três di­

visões: lei, profetas e os
escritos. Ao todo, somam 24 livros, sendo que esses livros correspondem
exatamente ao nosso computo comum de 39, visto que os judeus contam como sendo
um único livro os doze profetas, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas e
Esdras-Neemias.

Escrito originalmente em
hebraico, com exceção de pe­quenos trechos em aramaico, esse vernáculo, ou
seja, o Anti­go Testamento, foi trazido por Israel em sua bagagem quan­do
regressou da Babilônia. Há, também, algumas palavras persas. O historiador
judeu Flávio Josefo contou 22 livros porque reuniu Rute ajuizes e Lamentações a
Jeremias.[I]

Vejamos cada divisão:

A lei {tora}:
comumente chamada de Pentateuco, essa parte é composta por cinco livros:
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio.

Os profetas {nebhiim}:
desdobram-se em duas subdivi­sões: os “primeiros profetas”, compreendendo
Josué, Juizes, Samuel e Reis; e os “últimos profetas”, formados por Isaías,
Jeremias, Ezequiel e “ Livro dos doze profetas”.

Os Escritos {kethbhim}:
contêm o restante dos livros; a sa­ber: Salmos, Provérbios, Jó. Há, ainda, os
“cinco rolos” {me- gillotlj)’. Cântico dos Cânticos, Rute, Lamentações
de Jere­mias, Eclesiastes e Ester. E, finalmente, os livros históricos: Daniel,
Esdras-Neemias e Crônicas.

Esta divisão em três partes
da Bíblia hebraica está de acor­do com as palavras de Jesus, que disse: “São
estas as palavras que vos disse, estando ainda convosco: convinha que se cum­prisse
tudo o que de mim estava escrito na lei de Moisés, e nos Profetas, e nos
Salmos” (Lc 24.44).

Mais
comumente, o Novo Testamento refere-se “à Lei e aos Profetas” (Mt 7.12) ou “a
Moisés e aos Profetas” (Lc 16.29).

O Novo
Testamento

O Antigo Testamento registra
o que Deus falou no pas­sado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais,
pelos pro­fetas. Já o Novo Testamento, a palavra final que Deus falou por
intermédio do seu Filho, Jesus Cristo, em quem tudo se consumou (Hb 1.1).

O Novo Testamento é composto
de 27 livros e foi escrito no grego, não no grego clássico dos eruditos, mas no
grego do povo comum chamado koiné. Seus 27 Livros estão classi­ficados
em quatro grupos, conforme o assunto a que perten­cem. Vejamos:

Biográficos (ar quatro evangelhos): Mateus, Marcos, Lucas e João.
Descrevem a vida terrena do Senhor Jesus e seu glo­rioso ministério. Os três
primeiros evangelhos são chamados “sinópticos”, devido a certo paralelismo que
têm entre si.

Histórico: Atos dos Apóstolos, que registra a história da Igreja
primitiva, o seu modo de vida e a propagação do evan­gelho, e tudo sob a
inspiração do Espírito Santo, conforme Jesus havia prometido.

Epístolas (21 livros): de Romanos ajudas e todas elas con­têm a
doutrina da Igreja. Nove dessas epístolas (ou cartas) são dirigidas às igrejas
locais. Quatro a indivíduos. Uma aos he- breus cristãos. E sete a todos os cristãos, indistintamente.

Profético: Apocalipse, ou Revelação. Trata da volta pes­soal do Senhor
Jesus à terra e das coisas que precederão esse glorioso evento. Em Apocalipse,
temos a evidência de Jesus vindo com seus santos para as seguintes realizações:

  • Destruir o poder
    gentílico mundial sob o reinado da besta.
  • Livrar Israel, que
    estará no centro da grande trlbula- ção.
  • Julgar as nações.
  • Estabelecer o seu
    reino milenar.

Os primeiros documentos do
Novo Testamento a serem escritos foram as epístolas do apóstolo Paulo. E essas
cartas, possivelmente, com a epístola de Tiago, foram compostas entre os anos
48 e 60 d.C., antes mesmo que o mais antigo dos evangelhos fosse redigido. Os
quatro evangelhos perten­cem às décadas que variam entre os 60 e 100 d.C. E é
justa­mente a esse período que se atribui o outro escrito do Novo Testamento.

O tema
central da Bíblia

Jesus é o
tema central da Bíblia. E foi o próprio Jesus quem declarou isso em João 5.39,
quando disse: “Exa­minais as Escrituras, porque vós cuidais ter nelas a vida
eterna, e são elas que de mim testificam”.

A mensagem
central da Bíblia é a história da salvação e, ao longo dos dois testamentos,
podem ser distinguidos três elementos comuns nessa história reveladora: Aquele
que traz a salvação, o meio de salvação e os herdeiros da salvação. Isso
poderia ser reformulado sob o aspecto da ideia do concerto, dizendo que a
mensagem central da Bíblia é o concerto de Deus com os homens e que os
elementos comuns são o Me­diador do concerto, a base do concerto e o povo do
concerto. O próprio Deus é o Salvador de seu povo. E é justamente o Senhor Deus
que confirma o seu concerto de misericórdia com o seu povo. E é, também, o
próprio Deus quem envia a salvação. O Mediador do concerto é Jesus Cristo, o
Filho de Deus. O meio da salvação, a base do concerto, é a graça de Deus, que
exige de seu povo uma resposta de fé e obediência. Os herdeiros da salvação, o
povo do concerto, são os israeli­tas; ou seja, o Israel de Deus, a Igreja de
Deus.

Tomando o Senhor Jesus como o
tema central da Bíblia, os 66 livros podem, então, ser resumidos em cinco
tópicos referentes ao Senhor Jesus. Vejamos:

Preparação. Todo o Antigo Testamento trata da prepara­ção de Deus para
o advento de Cristo.

Manifestação. Pode ser vista nos evangelhos, que tratam ex­clusivamente
desse assunto: a manifestação de Cristo.

Propagação. Atos dos Apóstolos é o livro que trata da pro­pagação de
Cristo.

Explanação. As epístolas, que são as explanações das doutrinas de
Cristo.

Consumação. O livro de Apocalipse, que trata da consu­mação de todas
as coisas preditas por meio de Cristo.

A mensagem
da Bíblia é a mensagem de Deus para o ho­mem, comunicada muitas vezes e de
muitas maneiras, con­forme Hebreus 1.1, e, finalmente, encarnada em Jesus. Por
conseguinte, “a autoridade da Santa Escritura, a qual deve ser crida e
obedecida, não depende do testemunho de algum homem ou igreja, mas inteiramente
de Deus, seu Autor. Por­tanto, essa mensagem deve ser recebida por ser a
Palavra de Deus” (Confissão de Fé de Westminster – 1.4).

Fatos e
particularidades da Bíblia

No início, a Bíblia não era
dividida em capítulos e versí­culos. A divisão em capítulos foi feita em 1250,
pelo cardeal Hugo de Saint Cher, abade dominicano e estudioso das Es­crituras.

A divisão em versículos foi
realizada em duas vezes. O An­tigo Testamento, em 1445, pelo rabi Nathan. O
Novo Testa­mento, em 1551, por Robert Stevens, um impressor de Paris.

A primeira Bíblia a ser
publicada inteiramente dividida em capítulos e versículos foi a Bíblia de
Genebra, em 1560.

E de suma importância que o
aluno compreenda que essas divisões não faziam parte dos textos originais; ou
seja, não foram inspiradas.

A Bíblia toda contém 1.189
capítulos e 31.173 versículos, estando assim distribuídos: o Antigo Testamento
possui 929 capítulos e 23.214 versículos e o Novo Testamento, 260 ca­pítulos e
7.959 versículos.

O número de palavras e letras
depende do idioma e da ver­são. O maior capítulo é o Salmo 119 e o menor, o
Salmo 117.

O maior versículo encontra-se
em Ester 8.9 e o menor, em Exodo 20.13. Isso nas versões portuguesas, com
exceção da chamada Tradução Brasileira, onde o menor versículo é Lucas 20.30.

Nos livros de Ester e
Cantares de Salomão não consta o nome de Deus, porém, a presença de Deus é
evidenciada nos fatos que se desenrolam, prlnclpalmente em Ester.

Há, na Bíblia, 8 mil menções
de Deus sob vários nomes divinos e 177 menções do diabo e seus vários nomes.

O nome de Jesus consta do
primeiro e do último versículo do Novo Testamento. As traduções da Bíblia (toda
ou em parte) até 1984 atingiram 1.796 idiomas. Restam, ainda, cer­ca de mil
línguas a serem traduzidas.

Jesus e seu
conceito das Escrituras

Muitas
pessoas já ouviram falar de Jesus. Sabem quem Ele é. Creem que Ele operou
muitos milagres. Creem em sua res­surreição e ascensão. Mas, infelizmente, não
creem na Bíblia!

Qual foi a
posição de Jesus sobre a Bíblia? Ele leu as Es­crituras (Lc 4.16-20), ensinou
as Escrituras (Lc 24.27), cha­mou as Escrituras de Palavra de Deus (Mc 7.13) e,
por fim, cumpriu as Escrituras (Lc 24.44).

Em uma de
suas últimas referências à Palavra (Lc 24.44), Jesus aprovou as Escrituras do
Antigo Testamento. Quanto ao Novo Testamento, também afirmou que as Escrituras
são a Verdade (Jo 17.17). Jesus viveu e procedeu de acordo com as Escrituras
(Lc 18.31). Declarou que o salmista Davi fa­lou pelo Espírito Santo (Mc
12.35,36). Venceu o diabo no deserto com a Palavra de Deus (Mt 4.9,10).
Declarou que “aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu
nome, vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho
dito” (Jo 14.26).

No mesmo evangelho, o Senhor
Jesus ainda disse que o Espírito Santo os guiaria “em toda a verdade”.
Portanto, no Novo Testamento, temos a essência da revelação divina.

Jesus, nos seus ensinos,
citou pelo menos quinze Livros do Antigo Testamento, e ainda fez alusão a
muitos outros. Tanto no modo de falar quanto nas declarações específicas,
demonstrava, com clareza, o seu zelo pelas Escrituras do An­tigo Testamento
como sendo a Palavra de Deus.

O Mestre da Galileia
reivindicava a autoridade divina não somente em favor das Escrituras do Antigo
Testamen­to, mas, também, em favor de seus próprios ensinos. Tanto é que chegou
a afirmar que “o que ouve as suas palavras e as pratica, é sábio” (Mt 7.24),
porque os seus ensinos provêm de Deus (Jo 7.15-17; 8.26-28; 12.48-50; 14.10).


[I] JOSEFO, Flávio. História dos hebreus – Contra Apion. I, S.